Bem-vindos/as

No decorrer dos tempos a História de uma determinada civilização, sua cultura, os aspectos e conceitos da prática social nos assuntos da vida cotidiana, a relação entre os sexos, a religião, a economia, a educação, entre outros, foram retratadas em pinturas ruprestes e obras de arte.

Há cerca de dez anos, nasceu um estudo unindo Teologia e Arte: a leitura imagético-teológica. 

Tendo em vista que os estilos de arte são construções discursivas abordo, aqui, essa temática que possibilita uma nova visão e conhecimento desse campo para uma leitura e reflexão.

A arte é e continuará, sempre, sendo uma conexão entre o mundo antigo e o atual, e seus elementos iconológicos contribuíram para uma nova visão histórico-teológico-cultural. 

 Experimente essa nova visão...

"Enjoy"

 

Um pouco de letras, um pouco de arte

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31/05/2021 15:41
A obra de arte é uma forma de “escrita” e para que possa ser lida é preciso uma percepção sensível mediante a educação do olhar, pois cada obra de arte traz uma forma de expressão.  Esse novo campo de conteúdo teológico-imagético, ou seja, uma leitura da conceitualização teológica empregada em cada obra de arte através dos séculos é, agora, revelada por intermédio de uma leitura teológica de seu conteúdo e diversidade de formas e estilos.  Esse processo abriu novos caminhos ao se unir ao imenso horizonte da arte que compõem templos, igrejas, catedrais e obras compostas em diferentes períodos da história interpretados pela Teologia e pela Ciência da Religião.    Assim, não poderia haver uma forma melhor de traduzir, em poucas palavras, a riqueza da arte e sua leitura teológica nominando este site em "Textos-num-contexto".    "Ars longa, vita brevis" (A arte é eterna, a vida é curta)

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31/05/2021 15:46
Este espaço das letras e da arte foi criado em 2012 e está sendo atualizado em 2021 com mais artigos das minhas pesquisas na área das Ciências da Religião sendo que todos foram apresentados em palestras, nas mais diversas instituições de ensino superior do Brasil.   Vale a pena...

O Feminino na arte medieval

O Feminino na Arte Medieval

23/08/2012 22:24

Artigo apresentado na PUC de Minas Gerais e publicado na Revista Mandrágora, v.15, n. 15, p.117-124, 2009.  

 
Glória Maria D. L. Pratas[1]

 

Não se pode conceber a história das artes sem a presença da mulher.
Quer como inspiradora, quer como criadora, ela aparece na obra do pintor,
do escritor, do escultor ou do músico, como motivação claramente expressa pela linguagem do gênio.
Tanto na antiguidade, na idade média, na renascença, no século XVIII, como nos nossos dias
 a mulher sempre esteve e sempre estará presente na arte.

Nicéas Romeo Zanchett
(artista plástico)

Resumo

 A arte, no campo da pintura, em sua diversidade de formas e estilos, tem fascinado o ser humano com suas representações estéticas no trato de assuntos religiosos. A representação visual - descritiva das imagens de uma determinada civilização e cultura de uma época -, juntamente com a religião, estabelecia aspectos e conceitos para a iconografia. Nela era representada a prática social nos assuntos da vida cotidiana, na relação entre os sexos, na religião, na economia, na educação, entre outros, principalmente na questão de gênero. Falar sobre arte é enfocar a época de seu maior desenvolvimento: a Idade Média, pois a maior parte da arte produzida na Europa, durante um período de cerca de mil anos, compõe-se da pintura medieval. Tendo em vista que imagens são construções discursivas abordo o tema refletindo a imagética dessa influência cultural e religiosa na representação de gênero na Idade Média. Esta representou a mulher como metáfora de pecadora (Eva), de claustro (Maria) e de guerreira (Amazona – Joana D’Arc). As idéias conservadoras são analisadas neste artigo que aborda os aspectos e conceitos religiosos retratados na Idade Média retratando a visão cultural e religiosa da mulher na sociedade da época. 

Palavras-chave: Arte. História, Idade Média, Gênero, Teologia.

Introdução

        A arte, no campo da pintura, em sua diversidade de formas e estilos, tem fascinado o ser humano com suas representações estéticas no trato de assuntos religiosos. A representação visual, descritiva das imagens de uma determinada civilização e cultura de uma época, juntamente com a religião, estabelecia aspectos e conceitos para a iconografia. Nela era representada a prática social nos assuntos da vida cotidiana, na relação entre os sexos, na religião, na economia, na educação, entre outros, principalmente na questão de gênero.

        Tendo em vista que imagens são construções discursivas abordo o tema refletindo a imagética dessa influência cultural e religiosa na representação de gênero na Idade Média. Esta representou a mulher como metáfora de pecadora (Eva), de claustro (Maria) e de guerreira (Amazona – Joana D’Arc).

        Portanto, falar sobre arte é enfocar a época de seu maior desenvolvimento: a Idade Média, pois a maior parte da arte produzida na Europa, durante um período de cerca de mil anos, compõe-se da pintura medieval. A arte medieval, que nos chegou até os dias de hoje, tem um foco religioso, fundamentado no Cristianismo. Essa arte era, muitas vezes, financiada pela Igreja; por figuras poderosas do clero, como os bispos; por grupos comunais, como os dos mosteiros; ou por patronos seculares ricos. Essa hierarquia determinava, também, comportamentos, papéis e espaços de poder na questão de gênero, do masculino sobre o feminino, adquirida e transmitida nas estruturas sociais de dominação (Soares Almeida, 2007: 62).

        O presente artigo busca auxiliar na interpretação do cotidiano das mulheres, apresentados na historiografia e como ela é retratada na época vigente dentro da sociedade e na iconografia da época.

Uma breve passagem pela Era Medieval

        Nas obras de conteúdo histórico sobre a Era Medieval temos visto as mulheres apenas como meras coadjuvantes, com uma ínfima visibilidade, por entre páginas e mais páginas elaboradas sobre a participação e o governo dos homens, eliminando a pluralidade da história.

        A história das mulheres na Idade Média é um tema que foi por muito tempo desprestigiado pelos historiadores, mas, atualmente, vem atraindo estudiosos. Segundo alguns historiadores como Marc Bloch, Jacques Le Goff e Régine Pernoud, historiadora e medievalista francesa, ainda é muito difícil encontrar grande número de estudos sobre o assunto. Portanto, tentar conhecer um pouco mais sobre a participação das mulheres em um dado momento do período medieval, através da literatura existente hoje é, no mínimo, uma grande aventura.

        Nessa época, a maioria das idéias e dos conceitos, era elaborada pelos eclesiásticos. Eles detinham, acerca da mulher, uma visão dicotômica, ou seja, ao mesmo tempo em que ela era tida como a culpada pelo pecado original na imagem de Eva, era também a virgem Maria aquela que trouxera o redentor pelos pecados ao mundo, Nesse sentido, havia muito pouca arte fora do campo da religião. Em sua maioria as figuras bíblicas femininas retratadas, com exceção de Eva, Maria e Maria Madalena, são homens.  

        Mesmo tendo notícia de inúmeras mulheres do período medieval que se destacaram em vários setores da sociedade — educadoras, rainhas, médicas, astrólogas, teólogas, comerciantes e trabalhadoras braçais no trabalho agrícola — ainda não encontramos, em sua maior parte, citações de sua existência e participação na historiografia. A representatividade e o valor dessas mulheres, de maneira geral, que viveram no período medieval, ligadas a várias dimensões da sociedade, se perderam, pois; “o que a história não diz, não existiu”. (Swain, 2000: 13).

Um período de transição política-cultural-religiosa

        O período da Idade Média foi tradicionalmente delimitado por eventos políticos: inicia-se com a desintegração do Império Romano do Ocidente, no século V (476 d. C.), e termina com o fim do Império Romano do Oriente, com a Queda de Constantinopla, no século XV (1453 d.C.). A Era Medieval pode também ser subdividida em períodos menores. Num dos modos de classificação mais populares ela é separada em dois períodos: Alta Idade Média, que decorre do século V ao X; e Baixa Idade Média, que se estende do século XI ao XV.

        Para o povo medieval todas as coisas eram sagradas: o mundo, a natureza, o corpo humano. Tudo o que dizia respeito ao sobrenatural e ao extraordinário causava fascínio (Le Goff & Schmitt, 2002: 105). Dessa forma os séculos XII e XIII assinalam o aparecimento de uma civilização cristã das imagens representando as tendências da cultura de uma época, expressando e comunicando sentidos carregados desses valores simbólicos. Eles podem ser encontrados nas pinturas, nos vitrais das igrejas, em iluminuras, nas tapeçarias, entre outros. Ao lado da pintura, a tapeçaria foi a mais importante forma de arte medieval. Isso decorre em muito por sua utilidade ao manter o calor interno dos castelos, construídos de pedra, no inverno.

        Segundo Régine Pernoud[1] foi na Idade Média que se elaborou a linguagem musical em vigor até os nossos tempos; o canto gregoriano, atribuído ao Papa S. Gregório Magno (século VII); o livro, em sua forma atual, ou o codex que substituiu o volumen ou o rolo; as obras de Aristóteles que foram traduzidas do grego, para o árabe e o latim, possibilitando o florescimento da filosofia árabe; o teatro, muito cultivado na Idade Média, tomou aspectos especiais, mediante a Liturgia católica uma encenação pública da Bíblia, especialmente dos Evangelhos.

Uma alfabetização artística pelo olhar

        O povo durante a Idade Média não possuía o hábito da leitura, visto que eram poucos aqueles que tinham acesso à escrita e que podiam ler. Portanto, as artes visuais  foram um dos principais meios encontrados, principalmente pela Igreja Católica, de passar para a sociedade os valores do cristianismo, pois a obra de arte sendo uma forma de “escrita” conduzia o olhar dos iletrados para o conhecimento do que se pretendia ensinar e expressar.

        Na contemporaneidade para que a arte possa ser lida, é preciso uma percepção sensível mediante a educação do olhar. Cada obra de arte carrega em si uma forma de expressão, como podemos observar nas palavras de Emília Moura[2],

        A alfabetização dos sentidos, para a arte, envolve aprendizado, treino e questionamento. A obra de arte é uma forma de escrita cuja leitura permite que se amplie o instante fugidio do prazer de admirá-la. Como toda escrita, para que possa ser lida, é preciso que ocorra um processo de alfabetização e o primeiro passo, no sentido da alfabetização artística, é ver arte.

        Essa referência contribui para uma leitura e interpretação, hoje, dessas representações pictóricas que compõem templos, igrejas e catedrais nascem, não somente, em um período de ascensão da burguesia, da valorização do homem no sentido individualista e do “mecenato papal”[3], mas também de motivações religiosas que tornaram esses espaços propícios ao diálogo com Deus, à doutrinação dos fiéis e à celebração de rituais sagrados. Essa compreensão é reafirmada no texto de Emília Moura[4]:

        Durante a Idade Média européia, o número de pessoas alfabetizadas era muito pequeno e por este motivo a Igreja Católica usava imagens como recurso para a sua doutrinação. Na parte interna da cúpula do Batistério de Florença, onde Dante foi batizado, encontram-se ainda hoje as mais antigas histórias bíblicas que um fiel precisava saber e, assim, garantir o seu ingresso no domínio do sagrado. A visualidade da obra alfabetiza-nos em alguma coisa. Às vezes a forma é literal. Em outras, é necessário decifrar seus códigos e símbolos.

        Na Idade Média, desprezava-se a retratação do ambiente e a temática principal das obras era a do Céu e do Inferno. Ao Inferno eram lançados todo e qualquer texto bíblico ou representatividade relacionada à sexualidade e erotismo. As pinturas e relevos, até fins do século XIV, foram mais naturalistas, mas o contexto religioso ainda controlou a cena e nesta a sexualidade não teve lugar. A nudez na iconografia, e nas esculturas, não era qualificada pelos estudiosos como “erótica”. É difícil encontrar arte erótica anterior ao último quarto do século XV (com exceção das gárgulas, criaturas fantásticas, detalhes em capitéis de colunas ou em margens de ilustrações). (Link, 1998: 156). Link aborda esse fato da seguinte forma:

        A Idade Média especificou um lugar para o erotismo na pintura: relegou-o ao Inferno! Os pintores da época trabalhavam para a Igreja. E para a Igreja, erotismo era pecado. A única maneira possível de mostrá-lo na pintura era como algo condenado. Apenas as representações do Inferno — só as imagens repulsivas do pecado — poderiam fornecer ao erotismo um lugar.[5]

        Com a queda do Império Romano a pintura medieval passa a ser, predominantemente, bidimensional e os personagens retratados eram pintados, maiores ou menores, de acordo com sua importância. Os artistas medievais não estavam primariamente preocupados com o realismo. A intenção de passar uma mensagem religiosa pedia imagens claras e didáticas ao invés de figuras desenhadas com precisão fotográfica. A burguesia dispensava boa parte de suas finanças se fazendo retratar como integrantes das cenas de natureza religiosa.  A leitura acontece com o conhecimento da variação de formas, estilos e conceitos de cada tipo de arte, ao longo do tempo, como podemos ver a seguir:

  • Na Arte Bizantina o imperador possuía poderes administrativos e espirituais; era o representante de Deus, tanto que se convencionou representá-lo com uma auréola sobre a cabeça, e, não raro encontrar um mosaico onde esteja, juntamente com a esposa, ladeando a Virgem Maria e o Menino Jesus. As pessoas são representadas de frente e verticalizadas para criar certa espiritualidade; a perspectiva e o volume são ignorados e o dourado é demasiadamente utilizado devido à associação com maior bem existente na terra: o ouro.
     
  • Na Arte Românica as características essenciais da pintura foram a deformação e o colorismo. A deformação, na verdade, traduz os sentimentos religiosos e a interpretação mística que os artistas faziam da realidade. A figura de Cristo, por exemplo, é sempre maior do que as outras que o cercam. O colorismo realizou-se no emprego de cores chapadas, sem preocupação com meios tons ou jogos de luz e sombra, pois não havia a menor intenção de imitar a natureza. final dos séculos XI e XII)
     
  • Na Arte Gótica a pintura teve um papel importante, pois pretendeu transmitir não apenas as cenas tradicionais que marcam a religião, mas a leveza e a pureza da religiosidade, com o nítido objetivo de emocionar o expectador. A principal particularidade foi a procura do realismo na representação dos seres. Apresentava personagens de corpos pouco volumosos, cobertos por muita roupa, com o olhar voltado para cima, em direção ao plano celeste. Caracterizada pelo naturalismo e pelo simbolismo, utilizou-se principalmente de cores claras. A linguagem das cores era completamente definida: o azul, por exemplo, era a cor da Virgem Maria, e o marrom, a de São João Batista. A manifestação da idéia de um espaço sagrado e atemporal, alheio à vida mundana, foi conseguida com a substituição da luz por fundos dourados. Essas técnicas e conceitos foram aplicados tanto na pintura mural quanto no retábulo e na iluminação de livros.

O olhar masculino sobre o feminino

         Cercear o comportamento feminino era altamente importante para o bom comportamento e procedimento da mulher na sociedade. Como um instrumento ela precisa ser remodelada, preparada para corresponder às expectativas masculinas. O poder patriarcal exercido sobre a feminilidade era reforçado, porque esta representava o perigo. Tentava-se conjurar esse perigo ambíguo encerrando as mulheres no local mais fechado do espaço doméstico, o quarto (...) O quarto, era o espaço indicado para o “aprisionamento” das damas. Além de encerrá-las, era preciso ocupá-las. O ócio era algo bastante perigoso. O tempo tinha que ser dividido entre orações e trabalhos. (Duby e Áries , 1990: 88).

        A história sob uma ótica masculina de como deveria ser o comportamento feminino é retratada por Duby da seguinte forma: (...) Não se preocupavam em descrever o que existia, tiravam da experiência cotidiana, e sem se proibirem de retificá-la, elementos que proporcionassem uma lição moral. Afirmando o que se devia saber ou acreditar, buscavam impor um conjunto de imagens exemplares. (Duby, 1995: 11)

        Essa visão não se estendia apenas às de classe baixa, mas também às mulheres “bem-nascidas”. Estas eram uma ameaça contra a ordem estabelecida e por isso deveriam ser vigiadas e subjugadas.[6] As mulheres da aristocracia também se ocupavam dos trabalhos agrícolas, porém no aspecto organizativo, quando os maridos se ausentam, principalmente em caso de guerra. Mas fossem aristocratas ou pobres havia uma função em comum entre elas: fiavam e teciam.

        A mulher ficou limitada ser identificada, tipologicamente, como: Eva, a mulher na família; Maria, a mulher no claustro e a Amazona mulheres viris, guerreiras, assexuadas: um exemplo é Joana D’Arc. A mesma representação tipológica se deu no Renascimento, mas sob uma outra ótica mais decadente, sob o ponto de vista dos homens.(Carrenho, 1998: 44).

Uma representação iconográfica do feminino

        As mulheres na iconografia medieval eram representadas, pela ótica masculina, de como ela deveria ser. Os homens, profundamente influenciados pelos dogmas religiosos, elaboraram uma imagem feminina negativa, num estigma constante de pecado. O pecado de Eva estendia-se a todas as mulheres, caracterizadas como essencialmente más. Essa tradição antifeminina perdurou por toda a Idade Média até o século XI, quando se desenvolveu o culto a Maria. Somente no século XII, o culto Mariano se expandiu (...) resgatando o sexo feminino na figura de Maria. (Carrenho, 1998: 43). Já na época renascentista inicia-se uma nova fase da imagética sobre a mulher: ela passa a ser retratada com uma beleza mais serena, como na Pietá de Michelangelo.

        A reprodução de iluminuras, do século XIII ao XVI, retratou, em grande parte, atividades das mulheres como guerreiras, defensoras de seus castelos, construtoras de catedrais, mineiras, musicistas, camponesas, fiandeiras, caçadoras, pintoras etc. Tânia Navarro Swain em seu livro “De deusa à bruxa: uma história de silêncio” aborda sobre a existência de uma coleção de iluminuras que retratam uma série de atividades femininas inimagináveis dentro da historiografia tradicional medieval.

        Relaciono, a seguir, algumas obras de arte segundo a leitura e o olhar da época medieval, sobre o feminino, em uma breve leitura:

1. Eva

        Eva, na pintura de Lucas Cranach está próxima da serpente, o que a liga ao mal. A serpente, símbolo cristão maléfico por excelência, é a portadora da língua que levou Eva a desobedecer o Criador, pois ela é a "culpada pelo pecado". Já próximo a Adão temos o cordeiro.

 

Lucas Cranach, o Velho, Adão e Eva (1531).
Staatliche Museen, Berlim

2. Maria, a Virgem

        A Virgem é considerada a segunda Eva, redimindo o pecado da primeira. A maçã é um símbolo comum entre na pintura: primeiramente num sentido negativo da maçã, o do pecado e em seguida um sentido positivo, o da salvação. Nessa imagem há duas simboologias nas mãos do Cristo menino: em uma de suas mãos segura o pão (a redenção) e na outra uma maçã (o pecado original).

(Lucas Cranach, O Velho. A Virgem e o Menino (1525-1530). Eremitério de São Petersburgo, Rússia

3. Bruxas

        A misoginia na Idade Média ganhara força por intermédio dos manuais de caça aos/às hereges enviados para as fogueiras do Santo Ofício. A prática da bruxaria, considerada como superstição e sortilégio, torna-se uma das principais metas da repressão sendo considerada maléfica e demoníaca relacionando-se intimamente com a natureza feminina. Portanto, nessa época cristaliza-se definitivamente a imagem da bruxa, causadora de malefícios aos homens (doenças, deformidades, esterilidade, impotência, transformações). Toda bruxaria tem origem na cobiça carnal, insaciável nas mulheres.

 

Albrecht Durer. The Four Witches (1497)

4. Nudez

        A exibição prodigiosa da nudez feminina foi transformada em um alerta contra o pecado (Panofsky, 1943: 71).

Christ in Limbo - PACHER, Friedrich - 1460

5. Erotismo

        É difícil encontrar arte erótica anterior ao último quarto do século XV (com exceção das gárgulas[7], criaturas fantásticas, detalhadas em capitéis de colunas ou em margens de ilustrações). Portanto, estas eram representadas, também, dentro do espaço reservado ao Inferno ou local dos danados.

Details. SIGNORELLI, Luca - The Damned – (1499-1502)

Finalizando

        Longe de ter sido obscurantista, a Idade Média foi uma época em que o gênio humano se exprimiu de maneira inesquecível nas artes: letras, música, arquitetura, pintura e na filosofia, dando às suas produções um toque transcendental, profundamente religioso e inspirado numa fé profunda. É claro que houve, em tal época, como em outra qualquer, falhas humanas — não poucas nem pequenas — numa hierarquia nada igualitária.

        Na tentativa de compreender as obras, a partir de algumas características gerais da época medieval, destaquei que os períodos que surgiram na Idade Média buscaram retratar uma hierarquia determinante no comportamento e nos espaços de poder, na questão do masculino sobre o feminino.

        Finalizo convidando o/a leitor/a, a conhecer e contemplar as obras de arte da Idade Média que delinearam a participação da mulher na religiosidade, no dia-a-dia e no mundo, como tentativa de captar e compreender um pouco mais a estrutura social de dominação sócio-cultural-religiosa, da época, dentro desse estudo.  

Referências Bibliográficas

ALMEIDA, Jane Soares. Ler as letras: por que educar meninos e meninas?.São Paulo: Autores Associados e Umesp, 2007.

CARRENHO, Elza Aparecida de Andrade. O Juízo Final no espaço sagrado da Capela Scrovegni à Capela Sistina, Bauru: Editora Edusc, 1998, 142p.

DUBY, Georges. Heloisa, Isolda e outras damas do século XII. São Paulo: Companhia das Letras. 1995.

___.; ARIÈS, Philippe (Orgs).. História da vida privada; Da Europa feudal à renascença. São Paulo: Companhia das Letras. 1990

ELIADE, Mircea, Mito e realidade. 3ª. Edição. São Paulo: Perspectiva, 1991.

KANDINSKY, Wassily. Do espiritual na arte. Tradução Álvaro Cabral e Antonio de Pádua Danesi, 2ª. Edição, São Paulo: Martins Fontes, 2000, 210p.

LINK, Luther. O Diabo, a máscara sem rosto. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

MANGUEL, Alberto. Lendo imagens: Uma história de amor e ódio. Tradução: Rubens Figueiredo et all. 3ª. Ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, 360p.

MOURA, Emília, A Educação do olhar. O ESTADO DE SÃO PAULO, caderno 2, domingo, 5 de março de 2000. Cf. endereço eletrônico: www.unir.br/~portal/educacaodoolhar.html,acessado em 20/09/2005.

PANOFSKY, Erwin. The life and art of Albrecht Dürer, Princeton, 1943.

PERNOUD, Régine. O mito da Idade Média.2ª. edição. Editora Europa-América, S/D.1997.skip to main | skip to sidebar

SWAIN, Tania Navarro. s/d. De deusa à bruxa: uma história de silêncio. Humanidades, vol.9, n.1, Brasília.

https://www.historianet.com.br/conteudo

* Historiadora e medievalista francesa (1909-1998). Doutora em Letras e diplomada pela École des Chartes e pela École du Louvre, foi diretora do Museu de Reims, do Museu de História da França, dos Arquivos Nacionais e do Centro Jeanne d´Arc d´Orléans (que fundou em 1974). Escreveu várias obras sobre a Idade Média, entre as quais “Idade Média: o que não nos ensinaram”, “Luz sobre a Idade Média” e “A mulher no tempo das catedrais”.

* MOURA, Emília, A Educação do olhar. O ESTADO DE SÃO PAULO, caderno 2, domingo, 5 de março de 2000. Cf. endereço eletrônico: www.unir.br/~portal/educacaodoolhar.html, acessado em 20/09/2005.

* O mecenato, prática comum na Roma antiga, foi fundamental para o desenvolvimento da produção intelectual e artística do Renascimento. O Mecenas, considerado como “protetor”, homem rico, era na prática quem dava as condições materiais para a produção das novas obras e nesse sentido pode ser considerado como o patrocinador, o financiador. O investimento do mecenas era recuperado com o prestígio social obtido. Encontramos também o Papa e elementos da nobreza praticando o mecenato, sendo que o “Papa Júlio II” financiador dos Afrescos da Capela Sistina foi o principal exemplo do que se denominou Renascimento Cortesão.

* MOURA, Emília, A Educação do olhar. O ESTADO DE SÃO PAULO, caderno 2, domingo, 5 de março de 2000. Cf. endereço eletrônico: www.unir.br/~portal/educacaodoolhar.html, acessado em 20/09/2005.

* LINK, Luther. O Diabo: a máscara sem rosto. São Paulo: Companhia das Letras, 1998, p.156.

*  DUBY Georges.  O perigo: as mulheres e os mortos, p.88.

* Ornato com figuras monstruosas como elemento decorativo.

 


[1] Glória Maria D. L. Pratas é Teóloga e Mestre Ciências da Religião, na área de Literatura do Mundo Bíblico, pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP).

 

 

 

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23/08/2012 12:59

Trabalho e religião:
o papel da mulher na sociedade faraônica
e na atualidade

 

Artigo apresentado na UMESP e publicado na Revista Mandrágora, v.17, n. 17, p.157-173, 2011.  

 

Glória Maria D. L. Pratas[1]

 

 

“Não se nasce mulher, torna-se mulher”.
Simone de Beauvoir

 

 

Resumo

A descrição das mulheres egípcias como um grupo detentor de direitos iguais aos dos homens ainda é muito comum na literatura. Apesar da contestação de vários estudiosos do assunto acerca dessa igualdade de direitos. Apesar de vários fatores, ou polêmicas à parte, as mulheres do Egito gozavam de uma situação jurídica e social privilegiada se comparada a outras civilizações antigas conforme os documentos analisados.Mas, afinal, qual era o verdadeiro papel da mulher na sociedade faraônica? O que mudou, se mudou, nos tempos atuais? Esses e outros questionamentos poderão ser conhecidos e vistos imageticamente, neste artigo, acerca da mulher pertencente a uma sociedade cujo país é envolvido por mistérios e descobertas históricas que atravessam eras.

Palavras chave: Trabalho, religião, gênero, Egito Antigo, arte egípcia, sociedades antigas.

Abstract

The description of Egyptian women as a group holds equal rights with men is still very common in the literature. Despite the opposition of several scholars on the subject of equal rights.  Despite several factors or polemics aside, the women of Egypt enjoyed a privileged legal and social situation compared to other ancient civilizations as the documents analyzed. But ultimately, what was the true role of women in society Pharaonic? What has changed, changed in modern times? These and other questions can be known and imagery seen in this article about the woman belonging to a society whose country is surrounded by mysteries and historical findings that cross eras.

Keywords: Work, religion, gender, Old Egypt, Egyptian art, old societies


Introdução

        Durante séculos estudiosos do Egito tentam reconstituir, cronologicamente, os reinados faraônicos que dominaram o mundo estudando as inscrições históricas, encontradas nas paredes tumbárias e em papiros. As inscrições estão em forma hieroglífica, um conjunto de sinais pictográficos criados pela civilização egípcia, que compõe um dos primeiros sistemas de escrita da humanidade. Elas vão de simples desenhos coloridos, feitos em pedras, que retratam a natureza (seres vivos e objetos), até os desenhos revestidos em ouro que retrataram a vida dos faraós nas pirâmides. O francês e egiptólogo Jean-François Champollion, foi quem os decifrou, a partir de 1822, e um dos primeiros a perceber a sua importância.

Descrição: Descrição: https://static.infoescola.com/wp-content/uploads/2009/08/1-35587237e8.jpg
Figura 1- Escrita hieroglífica. Fonte: https://www.infoescola.com/civilizacao-egipcia/hieroglifos/

        É fato que se descobriu mais sobre a história egípcia por intermédio da morte do que da vida decoradas precisamente no esplendor das suas tumbas. Essa arte, considerada documento histórico, foi preparada e pintada nas paredes tumbárias, durante a vida de seus futuros ocupantes, retratando seus feitos em vida juntamente com a história peculiar da época. Os responsáveis por essa fascinante história descrita em papiros e óstracos (fragmento de cerâmica ou pedra que contém palavras ou outras formas de escrita gravadas), de valor inestimável, foram os escribas.  

        Ser escriba no Antigo Egito era algo sonhado por muitos jovens, de ambos os sexos, mas segundo os estudiosos, restrito às mulheres. Eles eram os responsáveis por manter todo o funcionamento do sistema. Eram eles que registravam todos os acontecimentos do dia-a-dia de mulheres e homens da realeza ao campesinato; redigiam leis, efetuavam a contabilidade e informavam tudo o que estava certo, ou não, na sociedade egípcia.

         A carreira de escriba tinha requisitos bem rigorosos. Os jovens precisavam saber ler e escrever com perfeição e ter conhecimento em matemática, arquitetura e do dia-a-dia razão esta que limitava a participação de mulheres que eram preparadas para serem as “senhoras do lar”. As exigências eram muitas, mas eles recebiam diversas homenagens, além de serem bem pagos pelos serviços.

        Segundo Baines e Malik (2008, p.190)   os relevos e as pinturas das tumbas proporcionam grande riqueza de materiais; embora apenas os membros da classe alta da sociedade fossem enterrados em tumbas amplas e decoradas. As cenas subsidiárias não deixam de proporcionar vislumbres da vida do povo simples. Vislumbres que são completados com modelos e objetos funerários, de uso cotidiano, que frequentemente fazem parte do equipamento fúnebre. Achados como esses são menos frequentes nas escavações de povoados.

Descrição: Descrição: https://antigoegito.org/wp-content/uploads/2011/02/hierounas-300x185.jpg

Figura 2- Hieróglifos (Textos das Pirâmides) na parede da Pirâmide de Unas. Fonte: https://antigoegito.org/?p=2316

        Nos relevos e pinturas analisados areferência às mulheres, tanto na literatura como na representação artística relata o universo feminino em seus afazeres domésticos como a tecelagem de linho, o artesanato, a preparação de cerveja e de pão, bem como nos trabalhos do campo. Elas também foram representadas como carregadoras de oferendas nas procissões e como “carpideiras” cujas lamentações acompanhavam a dor da família durante o processo fúnebre. A maior parte das imagens femininas retratadas, que normalmente conhecemos, são da esposa de faraó que, de maneira estilizada, imortalizou a mulher egípcia.

        Segundo os estudiosos as egípcias conheceram um mundo em que lhes coube exercer o comando de um Império como Nefertiti, Cleópatra e Hatshepsut (faraó), elevadas aquém do papel comum de esposa, mãe e trabalhadora. Entretanto, vale lembrar que noventa por cento da sociedade egípcia era constituída por famílias de camponeses, mas encontrar registros da vida desse grupo é raro, pois a realeza é que detinha poder econômico para registrar a história dessa sociedade que sempre despertou uma curiosidade maior por seus mistérios e descobertas que marcaram eras.

        Há contestações entre os estudiosos acerca do papel exercido pelas mulheres egípcias na era faraônica. Afinal, as mulheres egípcias; eram ou não detentoras de direitos iguais aos dos homens? Autores como Christian Jacq (2000) atribui a elas um papel de destaque na sociedade, enquanto Gay Robbins (1996) mantém uma posição secundária, como a diferença de gênero na estrutura social egípcia.

        Contudo, a presença da hierarquia dentro dessa estrutura social, fez com que boa parte desses documentos associe a mulher à esposa e companheira, a “senhora da casa”. Mas, qual era, realmente, o papel da mulher na sociedade faraônica? Seria apenas o de esposa e mãe? Será que esse papel ainda prevalece na atualidade?

        Assim, contemplando um estudo voltado para a temática feminina, ao longo do período faraônico, buscaremos por meio desses vestígios do passado, relatar e demonstrar, de forma imagética, um pouco do cotidiano feminino do Egito faraônico.

A sociedade do Antigo Egito

        Normalmente quando nos lembramos da história do Egito antigo nos surge, imediatamente à mente faraós, sacerdotes e imagens femininas pintadas ou estilizadas em estatuetas que retratam a beleza de Nefertiti, entre outras.

        Porém, ao se estudar a documentação desse período encontramos uma estrutura hierarquizada, organizada por meio de critérios religiosos e econômicos, demonstrando que a mulher tem um estatuto próximo ao do homem.

        O faraó ocupava o topo desta hierarquia na condição de chefe de Estado e encarnação do deus Hórus. Logo abaixo, estão os sacerdotes como agentes organizadores dos cultos e festividades religiosas. Os nobres e escribas ocupavam uma posição intermediária realizando importantes tarefas que mantinham o funcionamento do Estado.

        A base desta sociedade ainda contava com os soldados, que eram sustentados pelo governo e garantiam a hegemonia do poder faraônico através das armas. Logo abaixo, os camponeses e artesãos, que trabalhavam nas colheitas e na organização das obras públicas necessárias ao desenvolvimento agrícola e comercial. Por fim, havia uma pequena parcela de escravos que também estavam subordinados ao Faraó.

        Nas sociedades antigas, como a egípcia, a divisão do trabalho coube aos dois sexos: ao homem foi designado a caça, a pesca e o trabalho pesado; à mulher o cuidado com a casa, a família e o auxílio na coleta de frutos evoluindo, posteriormente, para a cultura da terra.

        Apesar da discriminação sofrida pelas mulheres ao longo da história a figura feminina no Egito, se comparada a outras civilizações antigas, com certeza gozava de uma posição social e jurídica privilegiada. Os textos jurídicos encontrados tratam do casamento, da gestão dos bens, sem esquecer o divórcio, o futuro do patrimônio dos filhos e as questões de herança.

        Morley e Salariya (1999, p.34) fazem referência a essa questão: “as mulheres eram bem tratadas no antigo Egito. Elas podiam receber uma remuneração e ter propriedades”. Porém, elas não devem ser vistas como um grupo homogêneo, pois enquanto as da elite tinham amplos poderes legais, o mesmo não ocorria com as mais humildes (processo comum na maioria das sociedades). Contudo, para Morley e Salariya (1999) a lei egípcia reconhecia seus direitos e elas podiam ir aos tribunais reclamá-los se sentissem que estavam sendo tratadas de maneira injusta.

        Na literatura a distinção entre gênero também foi marcada. As inscrições demonstram uma visão dual das mulheres: ou elas eram “honradas” – estavam em conformidade com as normas sociais (os textos sapienciais de todos os períodos deixam claro que a mulher era responsável pela casa e que seu dever era ter filhos), ou representavam “perigo” – quando não apresentavam essa conformidade. Já nos textos autobiográficos, o que vemos são referências às mulheres por meio de sua relação com os homens, ou seja, com seus maridos e filhos.

        Apesar de se falar sobre igualdade é fato que a mulher estava renegada, sob o ponto de vista legal, a uma posição secundária. A elas não cabia ocupar cargos administrativos e do governo, pois segundo os autores pesquisados o papel principal da figura feminina era o de esposa e mãe, com exceção de algumas rainhas que governaram o Egito (como último recurso pela falta de herdeiros do sexo masculino) e as da elite. Esse não foi o caso de Hatshepsut que regeu o Egito como faraó após tomar o lugar de direito de seu enteado. Entretanto a representação das rainhas era, muitas vezes, acompanhada de barbas longas (símbolo de sabedoria) utilizadas, geralmente nas representações de faraó.

        Mas, qualquer que seja sua posição social, segundo Salles (2006) a mulher é primeiramente uma dona de casa, que administra o cotidiano com seus imprevistos, vela pela manutenção corrente da casa, ocupa-se dos filhos, sem esquecer os pais idosos. Na alta sociedade, as esposas de funcionários administram a vida doméstica e, eventualmente, acolhem os hóspedes e preparam as festas. Como nas áreas rurais a casa possui um bom número de criadas, cujos vínculos vão da liberdade à completa servidão.

        Portanto, se não havia distinção de sexos, quanto à parte formal da sociedade, é notório, segundo Robins (1996, p.141), “que as mulheres ocuparam uma posição secundária em relação aos homens ao longo de toda a história antiga do Egito.”

Religião e casamento

        O casamento no Antigo Egito era considerado importante para as mulheres, mas ainda há poucas informações, tanto sobre as cerimônias de casamento, quanto sobre os processos judiciais de divórcio. Sabe-se que este não era sancionado pela religião. Bastava que um casal quisesse coabitar para que a união fosse aceita. Segundo Baines e Malik (2008, p.205) o status legal de um casal que vivia junto era diferente do de um casado. Existe até o testemunho de um homem, que foi acusado de ter tido relações sexuais com uma mulher que vivia com outro homem, mas que não era casada com ele, e parece que isso não era considerado crime. Apesar dessas instituições relativamente livres, o adultério de uma mulher representava, pelo menos em teoria, um grave crime. (BAINES e MALIK, 2008, p.205)  

        Se a infidelidade feminina era mal vista, ao homem era permitido ter outras esposas, além da “senhora da casa” (título de respeito), desde que possuísse uma posição econômica mais elevada (fato ainda presente na cultura e na religião).

        Normalmente os homens se casavam por volta dos dezessete ou dezoito anos e as mulheres aos doze. O divórcio era algo simples e não necessitava de muito tempo para a obtenção do mesmo. Entre os principais motivos de divórcios estavam os maus tratos, o adultério e a infertilidade.

A esfera religiosa

        Uma importante esfera da ação feminina era a religiosa. As egípcias foram iniciadas nos mistérios do templo, mas na Época Baixa o cargo de “Adoradora divina de Amon”, em Tebas, foi, em geral, ocupado por esposas ou filhas de faraó.

        Fora de casa, mulheres da classe alta, e que possuíam instrução, desempenhavam um papel importante no culto religioso, podendo desenvolver a função de sacerdotisa (a função de uma sacerdotisa era considerada uma honra e não um trabalho), cantora ou dançarina. Porém, assim como as demais atribuições destinadas às mulheres, ao longo do tempo, tais funções no templo acabaram inferiorizadas (com exceção as das mulheres da família real).

        A palavra “religião” não existia na língua egípcia, pois sua cultura era impregnada de religiosidade. Era uma religião nacional, politeísta (com mais de duas mil divindades) e sem aspirações universais. O culto às divindades era o ponto principal e não a crença. Assim eles se preocupavam mais com a ortopraxia do que com a ortodoxia.

        A crença na continuidade da vida para além da morte era, no princípio,, um privilégio de faraó, mas após o Período Intermediário esse privilégio se estendeu para a população. Daí parte a concepção de mumificar o corpo para que ele não se danificasse para viver na outra vida. Em seus túmulos, eles colocavam tudo o que achavam necessário levar para a outra vida (móveis, jóias, vestes, alimentos, animais de estimação, serviçais etc). As pinturas retratadas nas tumbas eram um livro aberto dos seus feitos nesta vida e tinham poderes mágicos sobre o morto que se sentia feliz ao poder contemplá-las.

        Segundo Budge (2003) não havia uma escritura sagrada, mas a preocupação para com os mortos, em sua passagem para o outro mundo, fez do “Livro dos Mortos” (em egípcio antigo “Livro de sair para a luz”) um tipo de “escritura”. Em seu conteúdo há uma coletânea de feitiços, fórmulas mágicas, orações, hinos e litanias do Antigo Egito, escrito em papiro e colocado no túmulo junto às múmias. Ele preparava o morto para a sua “viagem” afastando eventuais perigos do caminho.

        Budge (2003, p.128) destaca que “a cerimônia para os mortos, ou Ritual de Embalsamento, durava dias e, consequentemente, era um processo que apenas a elite poderia arcar com os custos”. Em tempos mais antigos descobriu-se que uma forma abreviada de ritual havia tomado o seu lugar. Sobre essa questão os estudiosos fazem uma abordagem geral, e não quanto ao gênero, mas fica claro que a questão sócio-econômica era o fator primordial para um cerimonial de passagem.

        Contudo, a idéia central do Livro dos Mortos concentra-se não na condição sócio-econômica, mas no respeito à verdade e à justiça: apenas os seus atos seriam levados em conta, sem interferência de sua posição social ou de suas riquezas. A sorte do julgamento do morto dependia do valor de sua conduta moral. Encontramos essa idéia retratada num papiro em que Anúbis (Deus dos mortos, dos moribundos e guardião das necrópoles e das tumbas) pesa o coração do falecido.

        Essa ilustração (vide figura 3) revela que no julgamento de um morto a pesagem da balança era feita contendo o coração do(a) falecido(a) em um prato e a “pena da verdade” em outro. Essa pena pertencia à consorte de Anúbis, Maat, a deusa da verdade. Caso o coração fosse mais pesado que a pena sua alma era destruída para todo sempre. Caso fosse mais leve, a pessoa em questão, poderia ter acesso ao paraíso e sua alma seria guiada por Anúbis até o seu destino

      

Figura 3- Papiro Egípcio retratando Divindades Egípcias num Funeral. www.ide figura 2thoth.eng.br/Figuras/funerary.jpg&imgrefurl

        Havia, também, uma distinção quanto à retratação imagética dos personagens em sua coloração: os homens eram retratados com uma tonalidade acastanhada (eles trabalhavam a sol pleno) e a das mulheres amarelada (uma menor exposição ao sol representando que sua vida era dentro do lar)

        Os deuses poderiam ser antropomórficos (forma humana), zoomórficas (forma de animal) ou uma combinação de ambos. Contudo, os egípcios, em momento algum, acreditaram, por exemplo, que o deus Hórus, muitas vezes representado por um homem com cabeça de falcão, tivesse de fato aquele aspecto. A associação dos deuses com determinados animais relacionava-se com a atribuição ao deus de uma característica desse animal (no caso de Hórus a rapidez do falcão).

Gênero e trabalho: um ponto de vista sobre a questão

        Fontes indicam que, em meados do III milênio a.C. até o final do milênio seguinte, houve uma diminuição das oportunidades de trabalho fora de casa para as mulheres. Embora para o Reino Antigo possa se comprovar casos de mulheres – em número bem inferior ao masculino – que desempenhavam funções estatais, muitas vezes em posições de chefia, controlando bens e mão-de-obra, isso não ocorria no Reino Médio. Nesse período, as funções desempenhadas por mulheres, não pertencentes à família real, passaram a ser subalternas e a quantidade ínfima de mulheres escribas confirma sua ausência na burocracia.

        Morley e Salariya (1999) enfatizam essa ausência alegando que sob o ponto de vista moderno as mulheres, realmente, não tinham os mesmos direitos dos homens: “muitas eram bem educadas, mas não eram treinadas como escribas e a maioria das carreiras era vetada a elas. Uma mulher poderia se tornar faraó mais isso era extremamente raro”.

        Há, porém, uma atividade que as mulheres de todos os grupos exerciam: a alimentação e o cuidado de crianças pequenas. Essa atividade de mulheres amamentando ou segurando uma criança é retratada em várias pinturas e esculturas,.

        Morley e Salariya (1999) relatam que as mulheres nas famílias mais pobres trabalhavam em casa, nos campos ou ajudando no ofício de seus maridos. Elas faziam muitas coisas que podiam ser usadas em troca como: fiação, tecelagem, cestaria, pão, cerveja etc, e deste modo contribuíam muito para o ganho da família. No entanto as mulheres mais ricas se orgulhavam em não ter de trabalhar.

        A arte egípcia retrata claramente as ocupações de cada um. Aos homens era fadado as oportunidades de trabalho e vida social. As mulheres, raramente, eram representadas em cenas relativas às atividades agrícolas, como podemos notar na arte da pintura mural (figura 4), em que duas mulheres fazem a debulha dos cereais junto aos homens.


 

 

Figura 4 - Pintura mural de um túmulo retratando trabalhadores arando os campos, a colheita das culturas e a debulha de cereais sob a direção de um supervisor.
Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Portal:Antigo_Egito/Imagem_destacada/1

    Na figura 5 temos um retrato do trabalho da mulher egípcia é o de suas funções artesanais como a fabricação de pão e cerveja, fiação e t

 

tecelagem.

 

 

 

 

 

 

 

 

Figura 5 – Modelo de tecelagem do nobre Meketre,. Reino Médio, XIX Dinastia. Museu Egípcio Nacional, Cairo – Egito. https://www.amorc.org.br/destaques/destaque20.htmlhttps://www.amorc.org.br/destaques/destaque20.html

       
         Amanda Wiedemann (2007, p. 111), em sua tese de doutorado, baseada nas ideias de Bernadette Menu, aborda que a condição feminina sofreu um processo não-linear ao longo do período faraônico, já que, em época de descentralização ou enfraquecimento do poder central, havia a emergência de poderes menores de âmbito local que piorava as condições de vida das mulheres. De maneira geral, as diferenças estavam presentes também nos assuntos econômicos das classes dirigentes. O poder repousava em mãos masculinas que ocupavam grandes cargos públicos e recebiam uma renda em cereais e outros bens, enquanto as mulheres estavam praticamente excluídas da burocracia e da possibilidade de participarem dos ganhos provenientes desta.

A representação iconográfica da figura feminina

        Segundo Cardoso (2003, p.95) há escassez de representações imagéticas da mulher nas aldeias camponesas. É como se estas não trabalhassem lado a lado com seus maridos. Assim, para o autor “(...) as reconstituições de base única ou predominantemente iconográfica são sujeitas à caução, sendo muitos os fatores culturais capazes de induzir distorções”.

        Algumas representações imagéticas (vide figura 6) confirmam a tese de Cardoso do trabalho da mulher junto ao seu esposo no campo.

 

 

 

 

Figura 6 - Casal de camponeses egípcios ceifando trigo.Detalhe de uma pintura mural da tumba de Sennedjen em Deir-el-Medina, Egito. https://cpantiguidade.wordpress.com/author/marciocpa/

 

        Assim, a situação das mulheres no Egito é claramente definida na decoração mais antiga de túmulos quanto ao papel que lhes é atribuído. Nele, a hierarquia inicia-se pela esposa, ou, por vezes, a mãe, do proprietário do túmulo. 

        Elas são retratadas, geralmente, sentadas, a uma mesa de oferendas, numa estátua de grupo ou junto ao seu esposo, como vemos na figura 7.

 

 

 


Figura 7 – Rahotep e sua esposa. Fonte: www.aprendoartehistoria.wikispaces.com

        Por vezes, ela acompanha o marido quando este observa cenas de trabalho, mas ela é representada, com mais frequência, à mesa de    oferendas, parte importante e litúrgica de sua religiosidade.

        No entanto, necessário se faz abordar sobre as mulheres que marcaram a história egípcia com honras de “senhora da casa” e regente como Ahotep I (vide figura 8). Mãe do faraó Ahmósis, que libertou o Egito dos hicsos e reunificou o país. Após sua morte foi honrada pelo filho com as mais altas condecorações militares, exercendo o papel de regente, durante um período extremamente conturbado da história egípcia. Ela assumiu a regência após a morte do seu filho mais velho em batalha, exercendo o poder até a maioridade, do seu filho mais novo, para assumir o trono (NOBLECOURT, 1994)

   Figura 8 - Detalhe da tampa do sarcófago da rainha Ahotep I. Museu egípcio do Cairo, Egito. https://cpantiguidade.wordpress.com/author/marciocpa/

          No Império Novo as mulheres passaram a ter uma importância muito maior, assim como o seu vestuário passa a ser mais esmerado e o conteúdo erótico das cenas em que são representadas, mais definido, se bem que ainda muito codificado. O período tardio regressa praticamente ao antigo decoro.

        Referente às questões legais, as fontes provenientes do Reino Médio (primeira metade do segundo milênio), indicam que mulheres podiam agir em justiça, diante dos tribunais, fosse como querelantes, defensoras ou testemunhas em igualdade com os homens, o que não ocorria em outras culturas em que era necessária a existência de tutores para as mulheres.

Direitos e deveres da mulher na atualidade

        Atualmente, embora o ato de sair de casa para trabalhar, possa ter libertado algumas mulheres do passado e do estigma do passado como “senhoras da casa”, as mulheres egípcias não encontraram nenhum reconhecimento e estão optando por retomar a tradição. Apesar de serem classificadas com igualdade, na história antiga, atualmente, o Egito está classificado em 120 dos 128 países em relação à igualdade entre os sexos no relatório do Fórum Econômico Global, nas subcategorias, quanto à emancipação política e oportunidades reais para o sexo feminino na economia.

        A situação não difere dos tempos faraônicos conforme nos relata Iman Bibars, presidente da Associação para o Desenvolvimento e Valorização da Mulher, com sede no Cairo: “mais mulheres estão trabalhando, mas nem todo trabalho é libertador"[2].

        Bibars acrescenta: “apenas as mulheres de classe mais abastada podem se dar ao luxo de ter ambição". Por serem, em sua maioria, pertencentes à classe média ou baixa, Bibars acrescenta que “o analfabetismo feminino continua a ser elevado”. A mais recente Pesquisa do Mercado de Trabalho Egípcio concluiu, segundo ela, que “47% das mulheres rurais e 23% das mulheres urbanas não sabem ler nem escrever”[3].

        O Jornal The New York Times publicou que para as mulheres, na opinião feminina, retornar à tradição faraônica as levará a caminhos destinados apenas aos homens: “Eles é que devem carregar o fardo e prover para sua família. Uma mulher se destina a dar amor, carinho e ser protegida. Ela não deveria estar fora de casa o tempo todo”.

        Um estudo recentemente realizado pelo Centro de Pesquisas “Pew”, em associação com o International Herald Tribune, declarou que o Egito surgiu como um país onde as mulheres têm uma posição secundária no mercado de trabalho em relação aos homens e a igualdade de direitos é um “objetivo” muito mais do que uma realidade. Dos entrevistados no Egito, 61% disseram que as mulheres devem poder trabalhar fora de casa. Mas 75% disseram que, quando os empregos são escassos, os homens deveriam ter mais direito ao trabalho”.

        Segundo estatísticas, reveladas no The New York Times, as mulheres no Egito ocupam apenas oito das 454 cadeiras do Parlamento e cinco delas foram indicadas pelo presidente. Há apenas três ministras e nenhuma mulher entre os 29 governadores do país. A notícia vai um pouco além:

        Quando as mulheres pediram a oportunidade de se tornar juízas do Conselho de Estado, a mais alta corte do Egito, a assembléia geral do conselho votou contra, argumentando que a disposição emocional da mulher e seus deveres maternais as tornam impróprias para o cargo. A decisão foi revogada em março, depois que o primeiro-ministro Ahmed Nazif recorreu ao Tribunal Constitucional, mas nenhuma mulher foi indicada até agora. (The New York Times, 19/07/2010)

        Assim, discursamos o que é ser o feminino ao longo da história. As relações constituem um meio de compreender a representação social do papel das mulheres nas diversas sociedades e épocas, mas faz-se necessário, ainda, resgatar um papel que sempre foi relegado a uma posição secundária quando, com justiça, deveria ser igualitário, fazendo com que as mulheres não vejam tantas perspectivas no futuro que as faça não retornar ao passado, passado em que, ao que parece, delegava uma maior compreensão e reconhecimento do papel feminino.

Finalizando

        Por esse discurso percebemos que à mulher contemporânea, apesar dos tempos e das mudanças, ainda é reservado condições iguais às do passado. O trabalho, estudo, política não se abriram para a sociedade comum, mas continua a pertencer a uma pequena porcentagem elitizada. Assim, os menos abastados ainda sofrem com os direitos desiguais.

        Em seu discurso intitulado “Trabalho, mas não liberdade para as egípcias”, Bibar aponta que “o novo”, permanece ainda “antigo”, ou seja, o status social da mulher depende da família: “casar, gerar, cuidar de sua família”. Se quando solteira a mulher pertencia a seus pais; ao se casar passa a pertencer ao seu marido. Pode-se chamar a isso de liberdade? De direitos iguais? questiona Bibar.

        Apesar das limitações impostas e das generalizações inerentes a tentativa de se abarcar o longo período faraônico, procuramos demonstrar de maneira sucinta que os textos e a imagética no Egito antigo devem, segundo os estudiosos, serem encarados como reflexo do ideal de uma minoria, uma elite masculina por excelência, e não como o registro de uma realidade vivida por todas as mulheres desta sociedade.

        Os autores estudados documentam que os direitos legais das egípcias não se estendiam efetivamente a todas as mulheres já que, de certa forma, a igualdade entre os sexos tinha que encontrar um respaldo na riqueza e na base familiar. As áreas como o direito e a política têm pouco espaço para mulheres de origens modestas.

        Assim, segundo Robins (1996), não devemos permitir que a grande visibilidade das mulheres, na arte egípcia, obscureça o fato de que existia a distinção de sexos como parte da estrutura formal da sociedade e que, em geral, as mulheres ocuparam uma posição secundária em relação aos homens ao longo de toda a história antiga do Egito.

        Portanto, cabe aqui concordarmos com Bibar: “trabalho, mas não liberdade, para as egípcias”.

Referências Bibliográficas

BAINES, John, MALIK, Jaromir. Cultural Atlas of Ancient Egypt, revised. Oxford; Ed. Andromeda Oxford Limited, 2004, 2008.

BUDGE, E. A. Wallis. A Magia egípcia: pedras, amuletos, fórmulas, nomes e cerimônias mágicas. Tradução Laura Gláucia Ceciliato, São Paulo: Madras, 2003, 154p.

CARDOSO, Ciro F. S. Trabalho compulsório na antiguidade. Rio de Janeiro: Edições Graal, 2003.

JACQ, Christian. O Egito dos Grandes Faraós. Porto: ASA, 1999.

_____________. As egípcias: retratos de mulheres do Egito Faraônico. Rio de Janeiro:Bertrand Brasil, 2000.

LESKO, Bárbara. The Remarkable women of Ancient Egypt. United States of America: Scribe Publications, 1987.

MORLEY, Jacqueline. SALARIYA, David. How Would You Survive As an Ancient Egyptian? – Publisher: Orchard/Watts Group, 1999.

NOBLECOURT, Christiane Desroches. A mulher no tempo dos faraós. Campinas: Papirus, 1994.

ROBINS, Gay. Las Mujeres en el Antiguo Egipto. Madrid: Akal, 1996.

ROBINS, G. “Some Principals of Compositional Dominance and Gender Hierarchy in Egyptian”. Journal of the American Research Center in Egypt. The American Research Center in Egypt, v. XXXI, 1994, p. 36.

SALLES, Catherine. Larousse das Civilizações Antigas: Vol. I – Dos Faráos à Fundação de Roma, 2006.

SOUZA, Anna Cristina Ferreira de. Nefertiti: sacerdotisa, deusa e faraó: Androginia e Poder nas Imagens deAmarna. Dissertação de Mestrado da UFF, Niterói, 2003, p.64.

THE NEW YORK TIMES (19/07/2010, 16h29). Pesquisa efetuada em 02 de Junho de 2010 no site: https://ultimosegundo.ig.com.br/mundo/nyt/trabalho+mas+nao+liberdade+para+as+egipcias/n1237722955758.html.

WIEDEMANN, Amanda. A questão de gênero na literatura egípcia do II milênio a.C. Niterói, Tese deDoutorado em História , Instituto de Ciências Humanas e Filosofia da Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2007, 358 f.



[1] Glória Maria D. L. Pratas é mestre em Ciências da Religião, na área de Literatura Bíblica, pela Universidade Metodista de São Paulo.

[2] Jornal Último Segundo. Notícia anunciada no “The New York Times” em 19/07/2010 16h29. Pesquisa efetuada em 22 de Agosto no site: https://ultimosegundo.ig.com.br/mundo/nyt/trabalho+mas+nao+liberdade+para+as+egipcias/n1237722955758.html.

[3] Jornal Último Segundo. Notícia anunciada no “The New York Times” em 19/07/2010 16h29. Pesquisa efetuada em 22 de Agosto no site: https://ultimosegundo.ig.com.br/mundo/nyt/trabalho+mas+nao+liberdade+para+as+egipcias/n1237722955758.html.

 

 

 

Itens: 1 - 2 de 2

 

Artigo apresentado na UMESP e publicado na Revista Caminhando 16, Ano X, 2o. semestre 2005

O Juízo Final de Michelângelo

Recepção de elementos escatológicos cristãos
do Afresco Sistino[1]

Glória Maria D. L. Pratas e Rogério S. Pires[2]

Resumo

A ilustração de episódios bíblicos é tema do presente trabalho, que busca analisar a composição do afresco sistino “Juízo Final” do pintor renascentista Michelângelo. A leitura hermenêutica, pictórica, remonta ao capítulo 20 do livro de Apocalipse, no intuito de explorar esta nuança refletindo sua significação para a fé e o conhecimento teológico. Palavras-chave: escatologia, Renascimento, juízo final.

Michelângelo´s “Last Judgement”:
The reception of Christian
escatological elements in the Sistine afresco

Abstract

The Subject of this paper are illustrations of Biblical episodes, by an analizes of the fresco “Last Judgment” in the Sistine Chapel, work of the renaissance painter Michelângelo. This hermeneutic, pictorial reading, of chapter 20 of the book of Apocalypse, intents to explore its significance for faith and theological knowledge. Key-words: eschatology renaissance, last judgment.

 

Vivo para o pecado, morrendo para mim mesmo;
não é mais a minha vida, mas uma vida de pecado;
meu bom céu, meu mal por mim mesmo me foi dado,
pelo meu livre arbítrio, do qual fui privado.
Ó carne, ó sangue, ó madeira, ó extrema dor,
apenas por ti é justificado o pecado no qual
nasci e também meu pai. És o único bem;
Que sua suprema piedade salve-me de minha
iníqua condição, tão perto da morte e,
no entanto tão longe de Deus.
[Michelângelo Buonarroti]

 

Introdução

        A arte no campo da pintura, em sua diversidade de formas e estilos, tem fascinado o ser humano com suas representações estéticas no trato de assuntos religiosos. A obra de arte é uma forma de “escrita” e, para que possa ser lida, é preciso uma percepção sensível mediante a educação do olhar. Cada obra de arte carrega em si uma forma de expressão, como podemos observar, a seguir, nas palavras de Emília Moura[3], :

"A alfabetização dos sentidos, para a arte, envolve aprendizado, treino e questionamento.
A obra de arte é uma forma de escrita cuja leitura permite que se amplie o instante fugidio do prazer de admirá-la.
Como toda escrita, para que possa ser lida, é preciso que ocorra um processo de alfabetização
e o primeiro passo, no sentido da alfabetização artística, é ver arte".

        No interior da Capela Sistina, na Basílica de São Pedro, em Roma, encontramos uma coletânea desses “escritos”, em forma de arte, “esculpidos” pelas mãos do grande escultor e pintor Michelângelo, encomendadas pelo Papa Júlio II. Na cúpula da capela encontramos retratadas cenas que exprimem a criação e a “grandeza” do homem ao passo que, na parede atrás do altar, cenas do Juízo Final simbolizam a sua “pequenez” perante o juízo do destino.

        Para melhor compreender essa tradição imagética, é necessário nos reportarmos ao ano de 313 d.C:

"Quando o imperador Constantino concedeu liberdade de culto aos cristãos, transferindo a eles, inclusive,
templos e bens pertencentes aos pagãos, também selou uma tradição imagética
que perdurou por mais de 1.400 anos no mundo ocidental:
a produção de imagens ancoradas na temática cristã e, sobretudo, na figura emblemática de Cristo"[4].

        Essas representações pictóricas que compõem templos, igrejas e catedrais nascem não somente em um período de ascensão da burguesia, a valorização do homem no sentido individualista e o “mecenato papal”[5], mas também de motivações religiosas para tornarem estes espaços propícios ao diálogo com Deus, à doutrinação dos fiéis e à celebração de rituais sagrados. Essa compreensão é reafirmada no texto de Emília Moura[6]:

"Durante a Idade Média européia, o número de pessoas alfabetizadas era muito pequeno
e por este motivo a Igreja Católica usava imagens como recurso para a sua doutrinação.
Na parte interna da cúpula do Batistério de Florença, onde Dante foi batizado,
encontram-se ainda hoje as mais antigas histórias bíblicas que um fiel precisava saber e,
assim, garantir o seu ingresso no domínio do sagrado.
A visualidade da obra alfabetiza-nos em alguma coisa.
Às vezes a forma é literal. Em outras, é necessário decifrar seus códigos e símbolos".

        A exemplo disso podemos citar obras compostas em diferentes períodos da história como: os vitrais nas catedrais góticas; as “Pietás” de Michelângelo, bem como suas pinturas junto à Capela Sistina, em Roma; a “Santa Ceia” de Da Vinci; os “afrescos da Capela Scrovegni” de Giotto e o “Jantar de Emmaús” de Caravaggio.

        Para uma melhor compreensão e visualização da obra de Michelângelo na Capela Sistina, incluiremos, neste artigo, uma visão panorâmica do interior da capela e um recorte do Afresco do Juízo Final, tematizado no capítulo 20 de Apocalipse. No artigo abordaremos um breve histórico do autor, o período Renascentista e o Maneirista, a caracterização do espaço-temporal do Afresco e a recepção (uma leitura dessa arte) dos elementos escatológicos cristãos do Juízo Final.

Um breve histórico do autor

        O italiano Michelângelo Buonarroti, autor do Afresco Sistino, entre outras grandes obras, nasceu em Florença, em 6 de março de 1475. Foi pintor, escultor e arquiteto (chegou à arquitetura relativamente tarde, já com 40 anos). A grande marca que o elege “talento universal nas artes” se deve à perfeição e precisão com que delineia, com o pincel ou o cinzel e o martelo, o corpo humano. Os traços precisos, expressos em suas esculturas ou pinturas, belas e clássicas, se devem à sua aplicação aos estudos de anatomia, em cadáveres, no Hospital do Espírito Santo, em Roma. Conta-se que, ao terminar a estátua de Moisés Michelângelo teria batido no joelho da escultura e pronunciado a tão difundida expressão: Parla! — tal era a perfeição da obra.

        Michelângelo é convidado pelo Papa Júlio II, no período de 1508 a 1512, para compor o teto da Capela Sistina composto pelo artista com características renascentistas. A posição incômoda no qual o artista teve que pintar, por quatro anos — sobre andaimes, com seu corpo retorcido e gotas de tinta prejudicando-lhe a visão —, causou-lhe cansaço e muitas dores. Alguns historiadores e críticos de arte relatam que Michelângelo foi vitimado pelas vaidades do Papa Julio II sob veladas ameaças de que seria substituído pelo jovem pintor Rafael, então em ascensão.

        No segundo momento, vinte e quatro anos mais tarde, em 1536, Michelângelo inicia o Afresco do Juízo Final no período Maneirista no pontificado do Papa Paulo III. Tratava-se de um desafio considerável. A responsabilidade era imensa para um artista que com 60 anos via-se mais uma vez obrigado a trocar o cinzel e o martelo, de suas amadas esculturas, pelos pincéis abandonados há 20 anos. Mas o escultor que havia nele se manifestou, também na pintura, no trabalho que o elegeu um dos mais célebres artistas do Renascimento.

        Michelângelo se auto-retrata em alguns períodos de sua trajetória artística. Na pintura do teto da capela, ele iguala a posição de seu braço à do braço de Moisés: enquanto este o ergue, sob o poder de Javé para atravessar o Mar Vermelho, Michelângelo, mantém o seu erguido durante o período de quatro anos na execução dessa obra. Num outro período, ele retrata o seu rosto na pele segura por São Bartolomeu, pele esta que lhe foi arrancada no suplício, demonstrando, no rosto desfigurado, as dúvidas, angústias e desmerecimentos vividos por ele naquele momento.

        Como gênio criador e um talento universal Michelângelo foi, aos poucos, ocupando lugar de destaque entre os mais ilustres. Em 1547, foi nomeado “arquiteto da Basílica de São Pedro”, cargo que conservou até a morte. Seus últimos trabalhos se concentraram na arquitetura sendo que, no período anterior à sua morte, sua última obra foi a “Pietá Rondanini”. Michelângelo faleceu em 18 de fevereiro de 1564, aos 89 anos, sendo enterrado na Igreja de Santi Apostoli, em Roma.

O período do Renascimento e do Maneirismo

        Renascimento foi o nome dado ao movimento de mudanças culturais, que atingiu as camadas urbanas da Europa Ocidental entre os séculos XIV a XVI. As bases desse movimento foram proporcionadas por uma corrente filosófica reinante, o humanismo. Caracterizado pela retomada dos valores da cultura greco-romana, ou seja, da cultura clássica, é considerado como um importante período de transição envolvendo as estruturas feudo-capitalistas. Nesse período as esculturas e as pinturas destacam as figuras humanas. O homem é o centro de tudo. Não julguemos o Renascimento como um movimento de “alguns grandes homens”, mas como um movimento que representa uma nova sociedade urbana caracterizada pelos novos valores burgueses e ainda associada a valores cristãos.

        No Renascimento duas grandes novidades marcam a pintura renascentista, como as empregadas no teto da capela: a utilização da perspectiva, por meio da qual os artistas conseguem reproduzir, em suas obras, espaços reais sobre uma superfície plana, dando a noção de profundidade e de volume; e a utilização da tinta a óleo, que possibilita maior qualidade na pintura sobre tela, dando maior ênfase à realidade e maior durabilidade às obras. As cores destacam na obra os elementos mais importantes e obscurecem os elementos secundários. A variação de cores frias e quentes e o manejo da luz permitem criar distâncias e volumes que parecem ser copiados da realidade. Dois elementos se destacam na pintura: a expressão corporal que garante o equilíbrio, revelando uma figura humana de músculos levemente torneados e de proporções perfeitas e as expressões das figuras, refletindo seus sentimentos. Mesmo contrariando a moral cristã da época, o nu volta a ser utilizado refletindo o naturalismo. As esculturas passam a ser colocadas acima de uma base, podendo ser apreciada por todos os ângulos.

        Maneirismo é o nome empregado para designar as manifestações artísticas desde 1520, momento quando se inicia a crise do Renascimento, até o início do século XVII. Todo esse período foi marcado por uma série de mudanças na Europa, que envolveram os movimentos religiosos reformistas e a consolidação do absolutismo em diversos países. O homem já não é a principal e única medida do universo.

        O termo Maneirismo foi utilizado por Giorgio Vasari[7] para se referir à “maneira” de cada artista trabalhar. Sua marca evidencia uma tendência para a estilização exagerada e um capricho nos detalhes. Nesse sentido se perceberá que o maneirismo reúne características variadas, difíceis de reuni-las em um único conceito. Muitos críticos consideram que o maneirismo representa a oposição ao classicismo e ele se mantém como tendência artística até o desenvolvimento do Barroco, que marcaria a nova visão artística da Igreja Católica.

        O espaço não é problema para os escultores maneiristas. Isto o percebemos bem no Afresco do Juízo Final. A composição típica desse estilo apresenta um grupo de figuras dispostas, umas sobre as outras, num equilíbrio aparentemente frágil, unidas por contorções extremadas (figura serpentinada) e exagerado alongamento dos músculos (como podemos notar na figura do Cristo e dos mártires). A composição é definitivamente mais dinâmica que a renascentista. Rostos melancólicos e misteriosos surgem entre as vestes, de um drapeado minucioso e cores brilhantes como as que cercam as figuras celestiais. A luz se detém sobre objetos e figuras, produzindo sombras inadmissíveis. Os verdadeiros protagonistas do quadro já não se posicionam no centro da perspectiva (como a figura do Cristo), mas em algum ponto da arquitetura, onde o olho atento deve, não sem certa dificuldade, encontrá-lo.

Caracterização espaço-temporal do Afresco

        Inaugurada em 15 de agosto de 1483, a Capela Sistina deve seu nome ao Papa Sisto IV Della Rovere. O seu interior consiste numa longa e única nave, cujas dimensões (13,41m x 40,23m), correspondentes às do Templo de Jerusalém: 20,70 metros de altura. A sua importância já está implícita por sua própria localização: dentro do palácio papal no Vaticano, sendo capela particular do Papa, testemunha das eleições papais e do recolhimento de sua Santidade. Miguelangelo, em 1547, assumiu a direção da obra da Basílica de São Pedro. Esta, como pequena igreja, já existia desde 324 d.C., tendo passado por várias reformas. A dimensão da obra já se encontrava definida pelo projeto de Bramante[8] e pelas partes já construídas. No entanto, Miguelângelo pode racionalizar a planta, mantendo a idéia principal: um edifício de planta centrada em cruz grega com cúpula central, uma obra prima da engenharia e da harmonia arquitetônica.

        As imagens imortais, contidas nessa capela, contêm narrativas de natureza teológica, temas do Antigo e do Novo Testamento expressos no teto, nas paredes laterais e no espaço atrás do altar. O programa iconográfico expresso no teto encontra-se calcado na Gênese — a criação, o pecado de Adão e Eva, o princípio do homem e Noé e o dilúvio, o primeiro final da humanidade; as paredes laterais destacam os profetas e cenas bíblicas pintadas por vários artistas; e no espaço atrás do altar, o Juízo Final, foco deste trabalho.

        Desde o início da Idade Média, o Juízo Final era tematizado ocupando sempre a parede de entrada das Igrejas. O desafio para esta obra é que o espaço para esse tema seria na parede dos fundos da capela. Isso obrigou Michelângelo a cobrir duas janelas da arquitetura original, dois afrescos de Perugino e figuras que ele, Michelângelo, havia realizado quando decorara o teto. Com essas modificações, a parede ficou com 200 m2. Esse espaço foi preenchido por 391 figuras, muitas em tamanho superior ao natural.

        O afresco[9] é apoiado na escatologia do fim de toda a humanidade, expresso por traços fortes, marcantes e carregados de movimentos. Às vozes dos profetas, representadas no teto, Michelangelo junta as visões de João sobre o fim da humanidade, ao advento futuro do dia final, no qual todos serão submetidos ao julgamento do Cristo. No Afresco Sistino vê-se claramente o dinamismo que o Renacentismo proporcionou ao homem acentuado pela circularidade própria do Maneirismo.

        A composição das obras de arte que compõem essa capela confirma a influência que o Renascimento exerceu nas artes tornando essa dependência do Palácio do Vaticano (ver imagem do interior da Capela ao lado) um espaço descomunal de riqueza cultural graças às obras de célebres artistas como Michelângelo, Perugino, Boticelli, Signorelli entre outros.

Interior da Capela Sistina – https://wp.clicrbs.com.br/viajandocomarte/files/2010/12/IMG_1547.jpg

Afresco Juízo Final – https://www.pmisp.org.br/enews/edicao1008/images/foto_mes.jpg

Uma leitura hermenêutica do Juízo Final de Michelângelo

 

        Pintado na grande parede atrás do altar da Capela Sistina, o Afresco “Juízo Final” pode ser citado como uma das obras primas da pintura universal. Baseada no livro de Apocalipse, capítulo 20, nela “Michelângelo junta as visões de João sobre o fim da humanidade, o advento futuro do dia final, no qual todos serão submetidos ao julgamento do Cristo.”[10] Todos os elementos que compõem o afresco falam da relação Deus-homem-Juízo Final. São visões aterradoras, carregadas de vida, força espiritual e tensão, baseadas na técnica greco-romana da escultura. Embora pinte os corpos constituindo grandes figuras plásticas, a valorização da sua expressão marca esse trabalho por intermédio de corpos desnudos, como podemos ler na definição de Elza Carrenho[11]

"Os seus nus diferenciam-se da impassividade dos da Grécia Antiga.
É natural que assim o fosse, pois Deus criou o homem à sua imagem e semelhança e lhe deu uma alma,
o que fica muito marcado nos nus pintados no teto e no Juízo Final da Capela Sistina.
O corpo humano nu que até então tinha reprimida e proibida a sua re-apresentação pela Igreja,
como acontecia no período gótico, agora se torna um meio nobre de expressão pela sua origem divina."

        À primeira vista, o afresco é um todo com as figuras em movimento. No entanto, percebe-se nos agrupamentos uma certa simetria. A gigantesca composição aparece dominada pela vigorosa figura do Cristo-Juiz, o protagonista. Uma nuança clara, com maior foco de luz, envolve as figuras de Cristo e Maria: os que dele se aproximam, absorvem-na. Com seu corpo juvenil, irrompendo com força poderosa, Cristo emerge, corajosamente, desse círculo de luz e pronuncia a sentença final sintetizando “o Alfa e o Ômega” — Está feito! — ordenando a salvação dos bem-aventurados e o castigo dos pecadores.

        Ao lado do Cristo está a Virgem, de olhos baixos, numa atitude compassiva. Já não pode defender a humanidade, está impotente: a decisão foi tomada! À direita e à esquerda está a multidão de santos, mártires e eleitos. Parte desses eleitos são figuras anônimas, que já conquistaram a salvação das quais somente Deus conhece o valor. Em outra parte temos os santos e mártires: aqui estão os que já conquistaram a salvação com o sacrifício da própria vida juntamente com os objetos com os quais foram suplicados. A salvação da humanidade passa necessariamente pelo sacrifício do Cristo, pela cruz e ressurreição. A figura colossal de São João Batista, com a pele de um animal, aproxima-se do Cristo pela esquerda. Imediatamente à sua direita e mais próximo do Cristo está Santo André com a cruz.

        Na parte superior do afresco, anjos levam à cena do julgamento os símbolos da Paixão (a cruz, os dados e a coroa de espinhos [à direita] e a coluna da flagelação, a escada, a esponja [à esquerda]). O movimento circular de gesto do poderoso Cristo impulsiona um rodamoinho que lança (à direita) os condenados para baixo, e ergue aos céus (à esquerda) os eleitos. O resultado é um cataclismo cósmico: uma confusão de corpos de proporções heróicas e paixões torturantes. O desenfreado amontoado das imagens torna ainda mais aterrador o espaço abismal. Adão é retratado segurando a pele que cobriu a sua nudez lembrando, dessa maneira, que toda a humanidade será julgada, ninguém estará isento, o primeiro homem também estará lá.

        Aos pés da Virgem está São Lourenço com a grelha, o instrumento de seu martírio. À direita do Cristo reconhece-se São Pedro com as chaves e São Paulo, com a barba e um manto. Logo abaixo, São Bartolomeu aos pés de Cristo segura a própria pele e mostra ao Juiz a faca e sua própria carne martirizada (a face de sua pele é um auto-retrato de Michelângelo retratando seu sarcasmo marcando ali a sua confissão pessoal de culpa e de indignidade). Atrás de São Bartolomeu está Urbino, o ajudante do artista. Mais à direita vê-se São Simão com uma serra; São Basílio com o pente para cardar a lã; Santa Catarina de Alexandria segurando a roda da tortura; São Sebastião com as flechas; e a figura que segura uma cruz enquanto olha para baixo em direção ao vazio talvez seja Simão o Cireneu.

        Deus procurará redimir a maior parte da humanidade. Isso é demonstrado no centro do Afresco, abaixo de Cristo, o juiz, como é destacado na seguinte descrição:

"Equilibrando-se em vôo,
exatamente abaixo do Juiz Divino e acima das regiões infernais,
anjos tocam as trombetas e convocam as almas ao julgamento.
Um anjo segura o livro das boas ações (à esquerda),
cujo tamanho corresponde a pouco menos da metade do livro das más ações (à direita)"[12].

        O pouco espaço destinado ao inferno ressalta a misericórdia divina. Somente os pecadores que não se arrependerem serão nele lançados. Os demônios também são figuras antropomórficas, envoltas em sombras. Para estes prevêem-se sofrimentos atrozes. Essa cena apesar de ocupar um pequeno espaço é expressa por grande intensidade e dramaticidade. Nessa cena do inferno Michelângelo destaca a presença do barqueiro, numa alusão a Dante e a “Divina Comédia”. Neste nível a imagem faz referência a Caronte, o barqueiro, que recolhe as moedas colocadas sob a língua dos mortos (utilizadas para pagar a passagem do morto para a outra vida) e, no mesmo nível, a visão do inferno como um charco lodoso. Nela, Caronte, o barqueiro infernal “dos olhos como brasas ardentes” ergue ameaçadoramente o remo sobre as almas danadas que tentam pular do barco. No rosto de Caronte, Michelângelo auto-retrata o seu algoz, o Papa Paulo III que, como mentor da obra, lhe causou muitos constrangimentos e desmerecia constantemente o trabalho do artista.

        Esses são os elementos que destacamos dessa leitura iconográfica. Essa obra maneirista nos reporta a essas imagens de forma elíptica. Entra-se no texto pela luz que envolve Cristo. Seguindo seu olhar, passa-se pela região dos apóstolos e mártires; inicia-se a descida ao inferno; passa-se pela região dos mortos; volta-se por meio dos santos ao Cristo e sua mão erguida remete o espectador a fazer novamente o mesmo percurso. Nela não se tem uma visão do Paraíso, pois os homens estão em julgamento sendo conduzidos aos seus lugares eternos.

Considerações finais

        A pintura analisada nessa obra de Michelângelo expressa não somente o tratado teológico das “últimas coisas”, necessárias para a compreensão desse projeto iconográfico, mas uma hermenêutica sobre a humanidade e seu caminhar, marcadas na obra do autor pelo Renascimento e Maneirismo. As idéias Renascentistas incorporam um realismo e uma força presentes em cada bloco de imagens, principalmente pela perspectiva e pela luz. O reflexo maneirista dispõe as figuras e os elementos, de maneira circular, permitindo-nos ver, nessa seqüência de imagens escatológicas na temática do julgamento final, que, por meio da misericórdia divina, haverá mais salvos e redimidos do que condenados e aterrorizados levados ao inferno.

        No Juízo Final, Michelângelo cria um quebra-cabeça narrativo em que o sujeito, mediante o olhar, contempla (com-templum, olhar religiosamente) e admira (ad-mirar, olhar com encanto) a escrita apocalíptica do autor na presente obra. Verdadeiras narrativas bíblicas contadas em forma de “prosa” e arte.

        Falta aos protestantes um olhar compreensivo da percepção e recepção desses elementos imagéticos, compostos ao longo da história da Igreja Católica. Visão esta dirigida como princípio doutrinário que, por meio de suas imagens teológico-pedagógicas, em forma de arte, serviram de aprendizado e doutrinação de iletrados e, não somente, como demonstração de autoridade e poder.

Referências bibliográficas

A NOSSA HISTÓRIA, https://www.historianet.com.br, acessado em: 20/09/2005.

CARRENHO, Elza Aparecida de Andrade. O Juízo Final no espaço sagrado da Capela Scrovegni à Capela Sistina, Bauru: Editora Edusc, 1998, 142p.

ELIADE, Mircea, Mito e realidade. 3ª. Edição. São Paulo: Perspectiva, 1991.

MOURA, Emília, A Educação do olhar. O ESTADO DE SÃO PAULO, caderno 2, domingo, 5 de março de 2000. Cf. endereço eletrônico: www.unir.br/~portal/educacaodoolhar.html,acessado em 20/09/2005.

RAMOS, Paula. A interrogação contínua: um comentário ao livro “O rosto de Cristo: a formação do imaginário e da arte cristã” de Armindo TREVISAN,. Arte Web Brasil . Disponível em: . acessado em: 20/09/2005.

 

 


[1] Trabalho em grupo apresentado por Glória Maria D. L. Pratas, sob orientação do prof. Paulo Roberto Nogueira no 7º Congresso de Produção Científica, da Umesp, em 19/05/2004.

[2] Glória Maria D. L. Pratas é Teóloga e assistente editorial da Editeo e Rogério de Souza Pires é Teólogo e mestrando na área de Ciências da Religião/Umesp.

[3] MOURA, Emília, A Educação do olhar. O ESTADO DE SÃO PAULO, caderno 2, domingo, 5 de março de 2000. Cf. endereço eletrônico: www.unir.br/~portal/educacaodoolhar.html, acessado em 20/09/2005.

[4] RAMOS, Paula. A interrogação contínua: um comentário ao livro “O rosto de Cristo: a formação do imaginário e da arte cristã” de Armindo TREVISAN,. Arte Web Brasil . Disponível em: . Baixado em: 20/set/2005.

[5] O mecenato, prática comum na Roma antiga, foi fundamental para o desenvolvimento da produção intelectual e artística do Renascimento. O Mecenas, considerado como “protetor”, homem rico, era na prática quem dava as condições materiais para a produção das novas obras e nesse sentido pode ser considerado como o patrocinador, o financiador. O investimento do mecenas era recuperado com o prestígio social obtido. Encontramos também o Papa e elementos da nobreza praticando o mecenato, sendo que o “Papa Júlio II” financiador dos Afrescos da Capela Sistina foi o principal exemplo do que se denominou Renascimento Cortesão.

[6] MOURA, Emília, A Educação do olhar. O ESTADO DE SÃO PAULO, caderno 2, domingo, 5 de março de 2000. Cf. endereço eletrônico: www.unir.br/~portal/educacaodoolhar.html, acessado em 20/09/2005.

[7] Giorgio Vasari (1511-1574) escritor, arquiteto e pintor italiano concebia a arte como imitação da realidade e o seu progresso como a realização de obras de arte cada vez mais próximas da realidade.

[8] Arquiteto e pintor italiano. Donato d'Agnolo di Pascuccio, o seu verdadeiro nome, é a grande figura da arquitetura renascentista do seu tempo e exerce uma considerável influência sobre Miguelângelo e Rafael. A obra que melhor reflete as suas concepções estilísticas é o projeto da Basílica de S. Pedro do Vaticano, que concebe com planta de cruz grega. O projeto original é posteriormente modificado por Miguelângelo.

[9] Afresco é uma técnica de pintura feita em paredes ou tetos rebocados enquanto a argamassa ainda está úmida. As tintas ou pigmentos usados que devem ser misturados com água são moídos ou granulados, para facilitar a penetração na superfície. Duas são as dificuldades encontradas neste tipo de pintura, a secagem rápida, pois a tinta não se fixa no reboco seco e a dificuldade em fazer correções. O reboco do afresco descora muito os tons, sendo assim os melhores resultados obtidos com cores suaves e foscas. A pintura de afresco atingiu seu maior desenvolvimento entre os séculos XIII e XVI, tendo a Itália como seu grande centro. Entre os pintores destacam-se Giotto e Michelângelo.

[10] CARRENHO, Elza Aparecida de Andrade. O Juízo Final no espaço sagrado da Capela Scrovegni à Capela Sistina, p.109.

[11] Ibidem, p.99.

[12] Michelangelo and Raphael in the Vatican: Special Edition for the Museums and Papal Galleries. Tradução: Stefania Contessa Panico https://www.religiaocatolica.com.br/conteudo/capela_sistina.asp, acessado em 22/set./2005

 

 

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